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Palestra sobre Pentecostes (Luiza Lameirão)

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Cinco meses atrás nós estávamos aqui reunidos para abordar o Natal; esperávamos por algo que estava por vir. E quando esperamos por algo sempre dirigimos o olhar para a direção do que está por vir. Há a esperança, a expectativa; para outros existe até a ansiedade por aquilo que está por vir. Mas para onde comumente nós dirigimos o olhar? Para onde vocês dirigiram o olhar hoje? Para onde vocês dirigiram o olhar ontem?
 
Será que todas as mães cozeram, costuraram e bordaram todos os retalhos de maneira a fazer uma manta para a família inteira?
 
Se voltarmos o olhar um pouco mais atrás, veremos de novo o terremoto no Chile.
 
O que será? Para onde voltamos o olhar quando pensamos no amanhã, e em depois de amanhã?
 
Como é voltar o olhar para o que ainda não aconteceu? É a mesma situação de voltar o olhar para o dia de hoje, para o dia de ontem? 
 
Há diferenças?
 
No ato de olhar para o amanhã há uma expectativa, um desejo, uma esperança, uma incerteza, um sonho, uma obrigação. Tem algumas coisas que eu tenho certeza de que eu terei de fazer, de qualquer maneira. E tem outras coisas sobre as quais não temos nenhum controle, portanto, há também uma abertura. Há aquilo que obrigatoriamente sabemos que cumpriremos, como se fosse aquilo que do passado nos direciona; e aí, se eu assumi certas responsabilidades, por dever e por senso de responsabilidade eu cumprirei.
 
É tão diferente olhar para aquilo que já passou e olhar para o que virá. 
 
Esse que virá vem sempre com um misto de insegurança e esperança, de dever e de abertura. E é tão bonito que no próprio relato bíblico da festa de Pentecostes se olha para o novo dessas duas maneiras. Então, os apóstolos puderam falar de tal maneira que os povos que vinham de todas as regiões vizinhas entendiam o que eles falavam, porque eles falavam como se estivessem falando no idioma em que cada povo falava.
 
Era um fenômeno novo, isso não era algo costumeiro. E como fenômeno novo aconteceu uma divisão. Uns diziam: “estão embriagados de vinho doce”, e outros diziam “o que vem a ser isso?”. Dessa breve reflexão, entre a insegurança e a esperança, entre o dever e a abertura, podemos pensar que quando julgamos a partir dos padrões do passado, impedimos que a abertura se faça, porém, diante do novo, quando nos colocamos uma pergunta, estamos completamente abertos para o futuro. 
 
Temos isso como preâmbulo. 
 
É importante que atualizemos essas vivências, é muito difícil nós ficarmos com a visão do acontecimento de aproximadamente dois mil anos atrás e não atualizar para a nossa vivência anímica no presente. Porque, senão o fazemos, comemorar festas parece sempre algo artificial ou algo saudosista. E a idéia é que aproveitemos cada um desses momentos– uma vez que eles se repetem a cada ano –como a possibilidade de vivenciá-los sempre com um novo olhar.
 
Pentecostes só faz sentido porque teve a Páscoa. É como o coroamento da passagem de Cristo na Terra. E essa situação, na verdade, implica em compreender que a humanidade antiga – ou a humanidade de antes do feito do Cristo – tinha de se elevar em contemplação para chegar até a esfera solar e ver de onde vinha esse agraciamento ou essa luminosidade do sol; então, o olhar não podia estar parado para onde nossos pés estão, tinha de se elevar ao máximo para poder chegar às alturas solares, não ver só o disco físico do sol, mas para poder ver o que estava por trás do sol. E os antigos conseguiam ver o que havia por trás do sol quando passavam pelas chamadas escolas de mistérios. Eles conseguiam perceber, por trás do disco físico, o reino ou a morada dos deuses. Tudo isso se modificou porque o grande ser solar deixou a sua morada, o seu reino, e veio morar na Terra. E na Terra ele foi o único que passou por tudo o que um ser humano passa. E onde começa e onde termina a vida humana terrestre? No nascimento e na morte. 
 
Mas se a vida de Cristo na Terra fosse somente nascimento e morte, não haveria Páscoa, nem Ascensão, nem Pentecostes. Porque teve a Ressurreição, pôde ter Ascensão e Pentecostes.E é interessante que para nós, por mais que já saibamos, ou que nos preparemos, quando morre uma pessoa o que vivenciamos? Dor da perda. Por que será? O que falta que ficamos tanto na dor?
 
Confiança no futuro, a confiança tão difícil de ser vivenciada, até parece que acabou!
 
Então, o futuro fica muito mais vinculado à insegurança do que à confiança. Lembra que acabamos de localizar isso? Que quando olhamos para o futuro há um misto de insegurança e esperança? 
 
É muito interessante que sob vários pontos de vista podemos olhar para esse passado, presente e futuro. Do ponto de vista daquilo que fundamenta a Pedagogia que nós praticamos na escola e que vocês praticam com seus filhos em casa, existem três exercícios que são exigidos do ser humano como indivíduo para que ele possa ativamente se apropriar do transcurso do tempo. Esses três exercícios estão completamente visíveis naquilo que é chamado pelo fundador da nossa Pedagogia, Rudolf Steiner, de versos da Pedra Fundamental. 
 
Esses versos, na verdade, formaram uma Pedra Fundamental para a segunda sede do Goetheannum, que Rudolf Steiner colocou no coração de cada ser humano que se vincule a esse impulso. Então, são palavras. E em todos os confins do mundo, onde houver alguém que cultive a relação com essas palavras, ali há uma sede, um lar para a Antroposofia.
 
É bem interessante que esses três exercícios são um apelo ao indivíduo; e o primeiro apelo é “exercita o recordar do espírito”. Cada vez que recordamos estamos dirigindo o olhar ao passado. E ao dirigir o olhar ao passado nós passamos pelo dia de hoje, de ontem, a semana passada, o mês passado, o ano passado e aonde chegamos quando vamos até as últimas conseqüências olhando para o passado? 
 
Chegamos ao nascimento, no mínimo!(escreve na lousa: “Nascimento”) Temos consciência do nascimento? Não. Mas se tivemos uma boa educação na primeira infância, temos gratidão por quem nos cuidou quando nascemos. Além dos pais, temos gratidão pela madrinha, pelos irmãos mais velhos.
 
Então, no nascimento, podemos dizer que estamos no tempo do Natal (escreve na lousa, Nascimento – Natal). E, na verdade, aqui é a expectativa por tudo o que há de vir. Todos nós que já tivemos filhos passamos pelo menos por nove meses por essa expectativa do que há de vir. E essa expectativa está completamente vinculada à nossa origem. Por quê? Porque se mergulhamos no fenômeno do nascimento, mergulhamos na pergunta “de onde viemos?”. Ou simplesmente nascemos porque teve um pai e uma mãe? Quando ampliamos essa visão de onde nós viemos, chegamos à nossa origem divina. E na origem divina sempre tem esse princípio criador, esse princípio que criou todas as criaturas e também o ser humano, e que nos protege para que essa vida se edifique; estamos completamente na esfera natalina. Para que uma vida se edifique precisa ser nutrida; nutrida não só pelo alimento que entra pela boca, mas pela palavra que ouve, pelo carinho que recebe, pelo ambiente ao redor, pelos seres humanos e comunidades que cuidam dessa criança.
 
Nós chegamos a esse princípio divino ou origem divina porque recordamos.(Escreve na lousa: Nascimento – Natal –Recordar).
 
Então, recordar é uma atividade do ser humano que está completamente vinculada ao que podemos chamar de nossa essência mais íntima e mais única: o EU humano. Sabemos disso claramente porque se um acidente ou doença faz com que percamos a memória, qual a consequência? Perda da identidade. 
 
Pela memória eu vou me vinculando aos lacres que eu deixei na minha trajetória, os lacres são as marcas da individualidade, isso é a biografia humana, e é tão maravilhoso estudar biografias!  No nosso caso, hoje, estamos tratando da biografia de um ser divino que se tornou humano. E é muito interessante que os grandes mitos e alguns seres humanos que temos notícia, como por exemplo o Rei Davi no relato do Antigo Testamento ou o Gautama Buda, têm relacionados ao nascimento fenômenos muito semelhantes aos da vida de Jesus de Nazaré. Quais são esses fenômenos?
 
Alguém anunciou: pode ter sido um elefante ou um anjo, mas alguém anunciou. Isso foi recebido com certo assombro, mas depois foi acolhido. Depois foi reconhecido como alguém diferenciado porque fenômenos extraordinários aconteceram nos seu nascimento: ou no céu, em que havia uma estrela que mostrava alguma coisa; ou anjos cantavam de outra maneira; e passou por tentações. E por fim passou pela Iluminação. O Buda passou por isso, o Jesus de Nazaré passou por isso ; com o Cristo não parou aí, e todos os outros pararam. Começam desde a Anunciação até a Iluminação, que é a trajetória comum aos grandes guias da humanidade. Apenas Cristo passou pela morte e ressurreição, celebrada na Páscoa (escreve na lousa: Morte - Páscoa). Mas a trajetória ainda não pára aí. 
 
Pelo fato de nós, como humanidade, termos na vida terrestre o sentimento muito vinculado ao nosso egoísmo de ter a pessoa perto, perceptível sensorialmente acabamos nos ressentindo com a morte, a humanidade se ressente, por isso muitas vezes paramos na Sexta feira Santa e ficamos diante da crucificação. Mas o mais importante da Páscoa é que a morte foi vencida. A humanidade não ficou submetida à morte, como queriam os seres adversários da evolução humana, mas a humanidade ganhou a possibilidade de se desvincular das forças da morte por meio da manhã de Páscoa. E olha que interessante: O Natal é uma festa da noite e a Páscoa é uma festa do amanhecer. Como é que nós nos sentimos à meia-noite e como nos sentimos ao amanhecer?
 
À meia-noite, depois de um dia de trabalho, estamos exaustos e é preciso que ganhemos um presente muito especial do céu, que possamos olhar as estrelas e ver que há estrelas tão diferenciadas no céu!
 
Mas ao amanhecer, se dormimos muito bem, vem o sol – para as crianças é uma alegria para os pais nem sempre, pois às vezes continuam exaustos e as crianças já querem se levantar. Mas se eu dormi suficientemente bem, eu desperto com disposição, com leveza. É essa leveza que Cristo devolveu à humanidade quando, na Páscoa, deixou que a morte fosse prenúncio de nova vida, quando proporcionou que a morte trouxesse a possibilidade de uma nova vida.
 
Se olharmos de novo para a nossa biografia, quanto mais deixamos a esfera da origem divina, portanto quanto mais deixamos a infância e chegamos à maturidade, adquirimos outra qualidade que é a qualidade reflexiva (Escreve na lousa: Morte – Páscoa – Reflexão). Somos capazes de refletir e quando essa reflexão nos leva a perceber momentos cruciais da nossa própria vida, percebemos que somos capazes de morrer e renascer muitas vezes em uma mesma vida. Vocês concordam? Isso faz parte da vida humana. 
 
Existiu um grande místico da Idade Média, Angelus Silesus, com quem eu tenho a maior relação, embora tenha lido pouca coisa porque não há quase nada dele traduzido.  Ele tem frases muito intensas e uma delas diz assim: “quando não morremos em vida, pereceremos quando morrer”. Isso é a possibilidade de uma vida; a confiança de uma vida depois da morte só existe porque exercitamos morrer e renascer. Como exercitamos isso diariamente? Tem de ficar bem amigo, íntimo de Gandhi, de Madre Teresa de Calcutá. Aliás, acerca disso – de se sentir totalmente desapegada –, eu me sinto um pouco incompetente. É super importante o desapego, mas estamos engatinhando. Há muita estrada para andar e ainda estamos engatinhando. Mas há uma coisa que praticamos diariamente. Dormir é o que fazemos de mais concreto. O que acontece quando dormimos? Nós morremos! E o que acontece quando morremos? Morre a consciência dos nossos atos. Mas no dia seguinte sabemos: parei o livro nessa página, deixei o jornal no meio do caminho, não passei a roupa que eu queria vestir. Então, eu sou capaz de interromper a consciência e me vincular com ela novamente quando eu acordo. Por que eu sou capaz de fazer isso? O que acontece quando dormimos? 
 
Um lado nosso se despede dos corpos, e é o lado que nos dá consciência; por isso conseguimos nos vitalizar e acordamos leves no dia seguinte. Esse lado da consciência vai para outras regiões; talvez volte lá para o lugar de onde ele veio, lá na tal origem divina, então, de noite é como se batêssemos “pics” nesse lugar de onde viemos, e se fazemos uma sesta e o “pics” é rápido, assim mesmo ele atua. Então, quando é possível fazer uma sesta, ao acordarmos, como é bom!
 
É a nossa vida consciente o que nos desgasta, porque estou prestando atenção a tudo o que me proponho, a tudo o que é exigido de mim profissionalmente, o que me é exigido porque tenho três filhos, um atrás do outro, porque a professora mandou fazer assim e eu não dou conta, enfim, eu faço um esforço de consciência durante o dia. Mas esse esforço, na maioria das vezes, nos vincula a situações concretas. Concordam? 
Nós podemos fazer um ato consciente, que nos revitalize, nos traga leveza, sem ser o sono. E até parece parente do sono, porque quando a gente tenta das primeiras vezes dá uma vontade de dormir! E o que é? 
 
É conseguir pensar em coisas que não são as concretas, que eu não percebo sensorialmente. Eu vou fazer uma analogia que já me ajudou muito a reconhecer isso. É a seguinte: nós ouvimos falar tanto que o feito do Cristo – a sua crucificação, o sangue que foi derramado –, se passou num morro chamado Gólgota, e por isso é chamado o Mistério do Gólgota. Sabem o que quer dizer gólgota? É a caveira, a caveira que é o crânio. Então, na hora que eu penso além do crânio, eu penso aquilo que não me chega por meio dos órgãos do sentido, portanto não vem da origem concreta, vem de uma origem não concreta. Quando eu pratico isso, eu pratico ressurreição. Bem mais fácil do que o desapego, por enquanto. 
 
Vocês estão todos me acompanhando? De vez em quando eu volto para algo concreto para não deixar vocês adormecerem, é de propósito, isso é cacoete de professor. Mas se eu pegasse só a linhagem do que eu quero dizer eu não traria nada de concreto. Estou tratando de pensamentos que dizem respeito a uma realidade que não é essa que pisamos, cheiramos, ou degustamos e nem o que seguramos com as mãos. Estou falando de uma realidade que não é a concreta. Quando eu falei para onde eu volto o olhar, lá no começo, não se trata desse olhar que eu preciso colocar óculos senão vejo vocês todos embaçados, mas sim, é para onde eu dirijo os meus pensamentos, a minha consciência, para onde eu foco aquilo que eu quero refletir.
 
E muitas vezes eu não foco nas realidades concretas quando eu quero refletir, e aqui é o começo da vida meditativa. Capacidade de reflexão é sinônimo de maturidade na vida. Por quê? O que a reflexão nos traz? Silêncio! E aí eu posso ter acesso a uma percepção de mim mesmo. Enquanto não tenho percepção de mim mesmo eu estou esperando que o mundo de fora me diga o que eu preciso fazer na vida. Na hora em que eu começo a perceber o que me falta para ser um bom profissional, o que me falta para não adoecer toda hora, o que me falta para ser menos gordinha e ficar mais elegante, o que me falta? Aí eu começo a ser autônoma, ter a rédeas da própria vida. Isso é maturidade. Então, maturidade é uma festa de Páscoa. Por isso, com as crianças, o Natal é uma festa que comemoramos muito mais espontaneamente do que a Páscoa. Natal tem o gesto da criança, no Natal o céu chegou à Terra. Esse é o gesto da criança, ela é essa notícia que chega do céu.
 
E na Páscoa, já se exige essa capacidade de reflexão para perceber :“morri e renasci”. A criança ainda não exercita isso, mas compreende pela linguagem da natureza e é por isso que só falamos de Páscoa para crianças com imagens: é a lagarta que faz seu casulo e torna-se borboleta; é o grão que é plantado e vai para a escuridão da terra, morre como grão e nasce como uma nova planta; é o pão, alimento sagrado, em que o grão também morre para virar farinha; todas essas são imagens que mostram para a criança que existe morte e renascimento. Talvez a transformação da lagarta, primeiramente em casulo e depois em borboleta seja a mais arquetípica de todas e por isso ela é tão usada. Vocês já devem ter ouvido isso dos professores dos filhos ou pelo menos dos próprios filhos, com versinhos, canções e histórias.
 
Aqui (mostra na lousa: Morte – Páscoa/Ressurreição- Reflexão)eu não estou no âmbito da origem divina, aqui estou no âmbito da vida terrena, ou no âmbito do espiritual na Terra. E isso é o grande feito do Cristo, a questão crística começa verdadeiramente aqui (na lousa: Ressurreição) e aquilo que ele proporcionou para a humanidade como um todo, independentemente da humanidade conhecer seu nome, sua doutrina e seus feitos na Terra. Foi a possibilidade de manter o nosso corpo com vida e com saúde para fazermos o processo de consciência. Porque o processo de consciência só e possível porque existe esse corpo que oferece resistência. Isso Cristo fez para todos os homens, e a humanidade inteira, não importa onde viveu ou viva, foi beneficiada com isso. Mas agora nós vivemos em um tempo em que é preciso um novo conhecimento, uma nova consciência da questão crística para poder fazer disso o caminho que eu decido trilhar por conta própria. E daí nós vamos da Ressurreição até a Ascensão e Pentecostes.  (Escreve na lousa: Ascensão/Pentecostes)
 
Se viemos da origem divina, passando pelo Cristo, aonde é que nós estamos chegando? Ao princípio do três, que faz parte de muitas origens, que há em muitas mitologias, muitas doutrinas religiosas. Tem um Pai, um Filho e um Espírito Santo. E é uma maravilha como a nossa cultura popular entende o que é o Espírito Santo. Eles falam bem tranquilamente assim: “Santo é o são”. Santo é o saudável. Ele está são, ele está saudável. O que é quando o espírito se torna são? Quando o ser humano é saudável? Quando está com o equilíbrio do corpo, da saúde; quando ele é consciente; quando ele ficar puro, quando conseguir se desapegar completamente. Isso nos remete a quê? Àquilo que já somos agora? Não. Nos remete ao futuro.
 
Podemos dizer que o espírito será são quando for inteiro, quando for pleno. Se ele é pleno, ele dá conta de ser saudável no corpo, dá conta de desapegar, de se manter consciente, não vai dormir no monte Getsêmani, como Cristo exigiu dos discípulos e eles dormiram. Então, aqui (mostra na lousa – Nascimento, Pai)nós poderíamos dizer que nós estamos no passado; aqui (mostra na lousa, Ressurreição - Filho) estamos no presente – e presente nos dois sentidos, tanto o presente que o Cristo nos deu, que é a possibilidade de nos mantermos vivos e saudáveis, mas também a possibilidade do Eu estar presente nesse momento –; e aqui ( na lousa, Ascensão/Pentecostes – Espírito Santo) é o futuro. 
 
Esse espírito são ou Espírito Santo é muito festejado no Brasil. E a origem dessa festa é muito especial, porque vem sempre com a bandeira da pomba. Quem conhece a pomba? Ela acompanha o Cristo desde o batismo. Ela apareceu, o céu se abriu, e uma pomba desceu sobre a cabeça e ouviu-se a voz do Pai que dizia: “este é o meu Filho muito amado, hoje eu o gerei”. É a pomba que traz essa notícia. Mais corriqueiramente, a pomba é uma mensageira. E uma coisa bem interessante que eu fiquei sabendo recentemente – apesar de ter nascido numa fazenda, nunca ninguém me falou disso e eu nunca havia observado: a pomba, apesar de ser uma ave, ela digere tanto os grãos que ela come – vai pro papo e volta pra boca – que os transforma em leite;e é leite o que ela pinga no bico do filhote! O que é isso, gente? A vaca tem uma “cozinhona” para gerar leite . Mas a pomba não tem essa “cozinha” tão grande. Que capacidade de transformação incrível, não é? E uma transformação que ocorre justamente na região onde vive o canto do pássaro e a fala do ser humano, pois vai do papo para o bico e do bico para o papo, não vai até o aparelho digestivo como é o caso da vaca. 
 
Desde os tempos remotos a pomba é a mensageira. Também o animal que todos podiam sacrificar. Noé soltou a pomba e ela voltou com o raminho verde da oliveira, um sinal de que então era possível que todos os seres descessem da arca. Ela traz mensagens de nova vida, mensagens de algo que pode se abrir para o futuro. Na verdade, no Brasil, além de todas essas pombinhas que vemos –esculpida em madeira, feita em cerâmica e tudo isso – as festas do Divino tem três características que vêm muito fortemente da origem portuguesa: a primeira é a que não pode faltar comida para ninguém; a segunda é que, nesse dia em que se comemora o Divino, os presos são soltos, e a terceira é que uma criança é coroada imperador. Olha que interessante! Se não olharmos só para o concreto,  o que veremos por trás dessas três características? 
 
O futuro. Porque o alimento para o espírito, para ele ser são, não é só o que pomos na boca, mas tudo o que nos alimenta interiormente, para nos deixar cada vez mais plenos e isso não pode faltar para ninguém. E quando nos aprisionamos? Quando estamos atrás das celas? Há depoimentos maravilhosos de grandes seres humanos que foram aprisionados e dentro das celas eles tiveram as vivências mais grandiosas. Então, o que nos aprisiona? As nossas necessidades, nossos julgamentos, as amarras que nós mesmos nos colocamos. Isso, no tempo do espírito são não vai existir mais, todos os presos serão libertados. 
 
E “coroar a criança como imperador” – para mim, que sou educadora, isso é o máximo! –, por quê? O que está por trás disso? Está que, no futuro, “deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino dos céus”. O que é a criança em nós? Por que a criança ameaça tanto a humanidade, por que a humanidade quer pôr a criança completamente minimizada? O que a criança é capaz de ser e nós não somos mais capazes de ser? Pura, plena, espontânea, criativa, tudo o que nos deixa são! Então, é a criança que nos indica o futuro. Ela é mesmo uma fé no futuro. A festa do futuro diz respeito a esse indivíduo que é capaz de se alimentar, capaz de não se fazer amarras e capaz de trazer todas essas qualidades plenamente humanas como a criança tem.  E aí podemos voltar a Schiller que diz: “a criança só brinca quando é ser humano plenamente; o ser humano só é pleno quando brinca.”
 
Essa situação mostra que se o indivíduo não trabalhar em si próprio – não exatamente do ponto de vista concreto –, se não trabalhar naquilo que é o “olhar por trás”, ele não pode ouvir a voz do Cristo. 
 
Agora, voltarei ao relato bíblico. Então, Cristo ressuscitou, e o anjo aparece e diz à Maria Madalena: “Vá adiante e diga que eu os encontrarei na Galiléia”. Lembremos que na paisagem natural dessa região há uma dualidade muito impactante. Eu nunca fui lá, mas eu já olhei muitas figuras e obras de arte. A Galiléia é onde tudo viceja e a Judéia é onde tudo é morto, então: “vá onde tudo viceja, que lá eu estarei com eles”. E ele passa quarenta dias com eles até a Ascensão, e eles passam a ter compreensão de muito mais coisas do que tiveram antes, nos três anos anteriores, e essa compreensão durou quarenta dias. Quarenta é uma data importante de se guardar. Quarenta é um número importante e se repete muitas vezes, é o número que indica transformação.  Para um indivíduo, 40 dias. Para um povo, são anos – por isso o povo hebreu passou 40 anos no deserto – para haver uma real transformação. Por isso se falava de quarentena para a mulher depois que tinha bebê. Será que conseguimos fazer quarentena quando tivemos nossos filhos?
 
Quarenta dias eles estiveram juntos, os discípulos ganharam a confiança de que poderiam cumprir porque ele estava ao lado. Mas ele desaparece nas nuvens! O que nos aconteceria se uma pessoa tão querida, que está nos ensinando tanto, desaparecesse nas nuvens? Como nos sentiríamos? Abandonados! E aí surge uma tristeza imensa. Uma tristeza que não conseguimos nem medir, porque nunca estivemos tão próximos de alguém que  pudesse nos dar indicações tão precisas e tão preciosas. E eles realmente ficaram desolados e se isolaram em oração por 10 dias – da Ascensão até Pentecostes. (Como sabemos, 40 dias depois da Páscoa temos a Ascensão, e 50 dias depois, Pentecostes.)
 
Em oração estavam de novo os 12,  Mathias era o 12º, pois Judas já havia morrido. Os 12 apóstolos e uma pessoa que era a 13ª. E tudo o que direi daqui para frente está em Atos dos Apóstolos e não nos evangelhos: com a morte de Judas, eles ficaram em busca de alguém para ser o 12º. Por quê? Porque o número 12 forma uma coesão grupal que é semelhante à coesão que há no mundo das estrelas fixas. E esse 12 – e muitos grupos importantes foram 12, como os 12 cavaleiros do rei Artur, as 12 tarefas de Hércules – forma a expressão do mais alto do céu na Terra. Só que aí tem o 13º, o Cristo foi o 13º, em vida, junto com os 12 apóstolos; Arthur foi o 13º na Távola Redonda, e quem foi a 13º pessoa em Pentecostes? A Virgem Maria, vejam que coisa maravilhosa! 
 
Desde o Natal ela acompanhou todo o processo, mas em Pentecostes ela é a 13ª. Ela não só fez parte como ela é retratada por esses grandes pintores como a figura central, que está ereta e recebendo esse fogo do espírito com toda a intensidade (*). 
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Por qual caminho ela passou para vir desde a Anunciação até aqui! O caminho dela começa antes do Natal, e antes do Natal ela é anunciada. E, por que é anunciada, essa percepção lhe causa um assombro e um temor, porque é algo maior do que ela pode vislumbrar e acolher, e ela faz todo um esforço para acolher. Isso foi um pouco antes do Natal. Podemos chamar isso de percepção. Essa percepção causou sentimentos e os dois sentimentos para os quais eu consigo achar palavras mais próximas são os de assombro, por algo completamente inusitado; e temor, que veio junto com “não sou digna de tudo isso, não consigo abarcar tudo isso”, mas é sempre no âmbito da percepção. 
 
E daí, entre episódios ocorridos depois do nascimento, teve um do qual ela se admirou muitíssimo, em que o seu filho tão simples, tão ingênuo, conseguiu discutir com os doutores da lei e isso foi razão para ela refletir muito. Ela teve de refletir muito. Por quê? O que será que está acontecendo que eu não consegui abarcar com aquela minha primeira percepção? A trajetória da mãe não termina com a Anunciação. Esses episódios que aconteceram – também o relatado no Evangelho de Lucas, durante a circuncisão, em que Simeão, aquele velhinho que estava lá, disse: “a sua alma será perpassada por uma espada” – foram motivos para ela cismar muito até que ela pôde estar ao pé da cruz.
 
Nos evangelhos, ela desaparece e só aparece ao pé da Cruz. Alí, ela desenvolve o sentimento máximo que um ser humano antes de Cristo pôde desenvolver que é a compaixão, a grande virtude de Buda, assim o budismo conflui para dentro do cristianismo; o Buda chamou os homens à compaixão. Toda a doutrina budista se vincula fortemente à essa vertente da compaixão. E ao pé da cruz Maria vivenciou a compaixão máxima. Para chegar em Pentecostes e ser o quê? Qual a capacidade que ela conquistou estando como essa figura central, tão ereta, tão presente? Ela estava dormindo? Não, estava bem desperta. Ela conquistou a possibilidade de uma consciência que é capaz de direcionar os próprios atos; como podemos chamar essa consciência? Em muitos textos eu achei um termo:  “consciência moral”. Temos uma visão de moral como ética imposta de fora, dos códigos que temos de cumprir, mas não é dessa consciência moral que se trata aqui, mas sim, de uma consciência capaz de, com autonomia, dirigir a própria vida. Isso é o que Rudolf Steiner chama de “individualismo ético”, como o indivíduo conquista a possibilidade de, a partir de si, ter uma conduta ética, com consciência lúcida. Mas essa consciência não a isolou do mundo, ao contrário, ela está no centro da comunidade que vai levar a mensagem para o mundo. Essa consciência é a base, é a ferramenta indispensável para uma vida social sadia. E aí podemos dizer aquele aforismo de Rudolf Steiner: 
“Salutar só é quando no espelho da alma humana se forma toda a comunidade, e na comunidade vive a força da alma individual.”
Isso é Pentecostes. 
 
Vejam que interessante: no Natal, duas comunidades visitaram a criança divina. Na Páscoa, na manhãzinha, quem conseguiu chegar lá em busca do ressurrecto? As mulheres. Ficaram sabendo, confusas, não sabiam se era ele ou não, parecia a imagem de um anjo, depois um jardineiro, mas tiveram a notícia da Ressurreição. E depois se formou uma comunidade muito ativa e presente entre a Ressurreição e a Ascensão, uma comunidade formada por 12, que é essa expressão da comunidade celeste na comunidade terrestre, com um 13º, o próprio Cristo, impulsionador. Depois ele desaparece e a comunidade fica um pouco assustada e amedrontada. Com Pentecostes essa força é recobrada e aí quem impulsiona como 13º é a própria Maria. A Maria como a imagem da alma que acolheu o Divino em si. Então, toda a trajetória da Maria, e essas são qualidades dessa trajetória, faz com que a nossa alma acolha o Espírito Santo. Eu espero que a Virgem Maria possa nos dar as mãos e nos proteger, cobrindo com o seu manto todas as noites, para acordarmos revigorados no dia seguinte e praticarmos que o Espírito Santo viva em nós e em nossas comunidades. 
 
Pergunta:
Nesse momento de Pentecostes, consciência não tem relação com o ser crístico em nós, o Eu interior? 
 
Luiza:
Se pegarmos pelo caminho de Paulo, diremos “Não Eu, mas o Cristo em mim”. É isso mesmo, exatamente. É que há tantos pontos de vista para se falar de Pentecostes que eu elegi um. Mas, certamente, – e considerando a trajetória entre o ressurrecto e Pentecostes –Paulo, que não fazia parte do grupo de discípulos e que não pôde presenciar nada concreto, mas que vivenciou no não- concreto,  foi o primeiro que pôde dizer “Não eu, mas o Cristo em mim”.
 
E essa é uma vivência que cada vez mais a humanidade poderá ter: a mesma que Paulo teve às portas de Damasco. E há relatos muito bonitos de seres humanos que vivenciaram isso durante as guerras. Relatos muito especiais; e esses relatos, junto com o de Paulo, lógico – pois o dele é o primeiro e precursor nessa direção –, nos remete ao fato de que essa vivência não pode ser concreta. Por quê? Porque se ela fosse concreta não nos deixaria livres. Porque ficaria comprovado concretamente “tem de ser por aqui”. Como não está comprovado, cada um pode ou não almejar querer ir por aí. Essa é uma vivência da liberdade. 
 
Aqui (na lousa) eu escrevi Recordar, Refletir, mas não escrevi nada aqui ao lado. E a palavra chave, eu até vou escrever com letra maiúscula, é: Contemplar, no sentido de olhar o futuro. Quando comecei eu pedi para vocês olharem e era para começarmos a perceber de que olhar se trata quando eu me coloco metas, me coloco alvos. E quanto mais nos colocamos nossas próprias metas, mais autônomos nós somos, porque senão dependemos das metas que o mundo de fora nos coloca. E essa é a autonomia necessária para o espírito estar são dentro de nós.
 
Então, esse Contemplar, esse olhar para o futuro pode ser colocado aqui como: metas, alvos, objetivos (escreve na lousa). Coisas bem da nossa vida concreta. Mas se eu me coloco essas metas a partir de mim mesma, eu sou dona da minha trajetória. Se eu deixo que os outros me coloquem, eu perco a possibilidade de autonomia.  Na Pedra Fundamental a qual eu me referi no começo, Rudolf Steiner diz assim: “exercita o Contemplar ou olhar do espírito na quietude dos pensamentos onde as metas eternas dos deuses, luz, essência cósmica, ao próprio Eu humano, para o livre querer doam.”
 
Se eu reconheço as metas dos deuses e as escolho com autonomia, eu ganhei a possibilidade da liberdade. Mas só se eu escolhi com autonomia, se não fui coagida. 
 
Comentário 
É interessante que recordar é contar com o coração. Eu não sei o refletir, mas contemplar é ir para o templo, ir para esse espaço sagrado.
 
Luiza:
Todas essas palavras – Recordar, Refletir, Contemplar – dizem respeito ao coração. Só que uma– Recordar –é o coração que vai lá para o passado e busca; em Refletir, é um coração que eu mergulho dentro, esse “refletir” não é o refletir de um espelho para fora, mas como se eu me olhasse a partir de dentro. E o Contemplar faz com que eu saia de dentro, em direção ao que eu quero almejar para o futuro.
 
Então, esses três exercícios nos remetem ao Passado, Presente e Futuro. Se pensarmos na trajetória de vida, podemos diferenciar.  Eu faço aquilo que devo, mas eu também tenho tarefas, e eu também tenho minha própria missão de vida. Parecem sinônimos essas palavras –deveres, tarefas, missão de vida – , mas vocês percebem uma sutil intensificação aí, não? 
 
O que eu faço por dever, eu sou coagido por algo que eu mesmo me impus no passado ou alguém me impôs; as minhas próprias tarefas é aquilo que eu faço nesse momento, aquilo que a vida está me pedindo agora. Mas a minha missão diz respeito ao que eu mais almejo, mais quero realizar. É sutil a diferença. Então, junto com Passado, Presente e Futuro podemos colocar: dever, tarefas e missão. 
 
Passado                            Presente                          Futuro 
Dever                                Tarefa                                Missão 
Na verdade, temos a chance, a cada ano, passando por essas três festas, de ser agraciado com o impulso para diferenciar, na nossa própria vida, quais as coisas que eu faço por dever – porque eu assumi e vou fazer porque tenho responsabilidade; as tarefas – que são as realizações do momento atual, mas que daqui a pouco eu posso transformar; e o que é a missão de vida. Tatear qual é a minha própria missão exige uma enorme capacidade de tomar decisões por si mesmo. E aí temos nas perguntas que nos colocamos uma grande ferramenta, como abordei inicialmente: não julgue imediatamente, mas se pergunte: “O que vem a ser isto?” (Ato dos Apóstolos2:12)
 
Natal                  Páscoa                         Ascensão/Pentecostes
Pai                      Filho                              Espírito Santo
Nascimento          Morte e Ressurreição       Vida
Recordar              Refletir                          Contemplar
Passado               Presente                       Futuro
Dever                 Tarefas                          Missão de Vida
 
 
(Palestra proferida pela professora Luiza Lameirão no dia 10 de maio de 2010, para pais e professores do Colégio Waldorf Micael)